outubro 18, 2008
Fundamentos do Projeto

2. O embasamento necessário de conhecimentos e experiência
As pessoas que não estão familiarizadas com o problema e com os métodos possíveis de solução, estão impossibilitadas de executar um projeto. Assim, em primeiro lugar um projetista deve ter um conhecimento profundo de todos os elementos envolvidos. Isso significa também que para cada "frente de pesquisa" específica, o embasamento necessário será determinado pelo assunto da mesma. Entretanto, hoje em dia nenhum campo de conhecimento é realmente "puro". Por exemplo, na engenharia mecânica certamente haverá muitos casos em que um recurso elétrico é uma parte importante do aparelho mecânico e vice-versa. Portanto, um embasamento diversificado é uma vantagem indiscutível. Além disso, o embasamento necessário variará consideravelmente de acordo com a extensão do conhecimento científico e do treinamento necessários. Por exemplo, um projetista que trabalha em um dos campos da aeronáutica deve ter estudado física, química, matemática, etc., profundamente, enquanto que outro, que trabalha para uma companhia que fabrica pequenos aparelhos eletrodomésticos, provavelmente não necessitará nada além dos cursos básicos. E mais ainda, deve-se observar que ao consultar muitos dos mais proeminentes executivos e projetistas da aeronáutica, bem como dos campos altamente especializados da eletrônica, concluiu-se que um certo número de pessoas, que tinham um treinamento técnico de apenas dois anos, tomaram-se valiosas para a companhia como projetistas de máquinas bastante complexas. O autor acredita, entretanto, que a extensão do treinamento técnico determina a extensão em que um projetista pode esperar trabalhar em equipamento altamente especializado. Deve-se acrescentar também que experiência num determinado campo pode substituir, até certo ponto, a falta de educação formal.
Todos os projetistas, independentemente do campo ou do produto, devem ter um treinamento completo em expressão gráfica. Do contrário, o projetista falharia completamente visto que, conforme a concepção do projeto avança, o pensamento do próprio projetista precisa ser registrado sob a forma de esboços e desenhos. Além disso, conforme o projeto é desenvolvido ele precisa ser discutido e aprovado por pessoas tais como o projetista-chefe, o engenheiro-chefe e os executivos da administração. Isto significa que é necessária uma comunicação clara e concisa, a qual deveria ser obtida através dos esboços e desenhos feitos pelo projetista. Freqüentemente os desenhos do projeto serão ampliados e sustentados por dados matemáticos e diagramas, incluindo algumas vezes dados de computador, mas os esboços e desenhos do projetista e a sua discussão e explicação são os aspectos mais significativos da comunicação. Como freqüentemente tem sido dito, embora seja praticamente impossível descrever, mesmo um elemento simples, através de palavras, a comunicação é obtida simples e diretamente com um desenho.
A Fig. 14.4 é um exemplo do desenho de um projeto bastante antigo de autoria de Leonardo da Vinci (data de aproximadamente 1500). Por sua grande habilidade de representar graficamente, da Vinci era capaz de transmitir um projeto, com grande clareza, em um único desenho.
Além da capacidade de expressar-se graficamente, o projetista deve não só ter um conhecimento completo dos processos de produção, dos materiais, dos métodos de fixação e de montagem, dos tipos de acabamento e dos métodos econômicos de produção, mas também um conhecimento dos valores estéticos.
in Desenho Técnico e Tecnologia Gráfica; French, Thomas E. e Vierck, Charles J. – Editora Globo – Rio de Janeiro, 1985
outubro 17, 2008
Thrust in me
Made by
NICK ZEDD and RICHARD KERN
Man / Woman .... NICK ZEDD
Pimp .... DON HOUSTON
Whore .... MARGO DAY
Girl ... DEE FINLEY
Music by
THE DREAM SYNDICATE
© 1985 DEATHTRIP FILMS
Para assistir ao filme >>>CLICAQUI<<<
in UbuWeb Film – Cinema of Transgression
O jovem Brecht

"Naturalmente, esse cara estava sempre com a barba por fazer. Ele cheirava como soldados durante uma marcha. E seu senso de humor angular, malicioso, não parecia urna coisa conveniente para senhoras. Havia um indubitável odor de revolução em torno dele. Isso ficava claro na maneira que cantava as suas cruas baladas. Mas quando ele as cantava, com sua voz aguda, as mulheres desmaiavam."
É assim que o escritor Lion Feuchtwanger descreve Brecht na juventude, quando o conheceu nos botequins de Munique, na década dos vinte. O futuro maior dramaturgo do século já fora enfermeiro na Grande Guerra, abandonara os estudos de Medicina, escrevera três peças, alimentava algumas idéias violentas sobre o teatro, outras mais violentas ainda sobre a civilização ocidental e passava seu tempo nos botequins da vida, bebendo cerveja e cantando suas canções, acompanhando-se ao violão. Dizem que cantava bem: "foi assim que ele apanhou noventa por cento de suas mulheres" — disse um amigo seu, com uma ponta de inveja. Os amigos de Brecht, na época, incluíam — além de escritores e intelectuais — artistas de cabaré, cômicos, lutadores de boxe e uma cambada de marginais de todo o tipo.
Tem gente por aí que diz que o jovem Hegel é que era o quente, o inventor da dialética; o velho era um reacionário, a serviço de urna ordem estabelecida autoritária. Outros, igualmente, preferem o jovem Marx, com seu humanismo existencial e sua profunda intuição da criminosa exploração da energia humana por uma organização social; o velho era um economista meio sobre o quadrado, isto é, mais um cientista chato. Com Brecht, acontece uma coisa parecida. Nós já conhecemos o Brecht da maturidade, através de sua obra-prima, Galileo Galilei: a sua sólida crença na Razão, a sua disciplina, a sua austeridade e o seu equilíbrio realista. As peças da maturidade de Brecht são tão bem conceituadas, tão rigorosas e tão esmagadoramente estruturadas, que nem o próprio Georg Lukács conseguiu deixar de gostar delas. Mas o jovem Brecht era fogo.
Ele acreditava que vivia num século atormentado em que toda a pureza do instinto e toda a esperança de que ele pudesse regular, de maneira racional e saudável, a vida humana, haviam sido esmagadas pela violência de uma civilização doente, urna cultura pervertida que conseguiu deformar, em nós, os próprios instintos. Para Brecht o horror de tal imagem do mundo era demasiado evidente. Ele vivia, escrevia e criava de acordo com ela. Baal, sua primeira peça, escrita quando tinha apenas vinte anos, conta a história de um poeta vagabundo, feio, solitário, amoral, bruto, que obedece cegamente aos seus instintos: uma personalidade psicopática, como diria o psiquiatra mais próximo. A história termina num verdadeiro banho de sangue. A segunda peça, Tambores na Noite, escrita na mesma época, conta a história de um soldado que volta da África para encontrar, nas ruas de Berlim, a revolta spartakista e, em casa, a noiva grávida de outro. O soldado trai a revolta e aceita a amada infiel: "Sou um porco e os porcos vão para casa" — diz ele. A terceira peça é Na Selva das Cidades, terminada quando Brecht completava vinte e cinco anos.
Em geral, os críticos consideram a autodisciplina que Brecht começa a impor-se depois dessas peças — principalmente a partir de Um Homem é um Homem, de 1925 — como uma evolução. Ele domou os delírios selvagens dessas primeiras obras e, segundo as palavras de José Celso Martinez Corrêa, "com a presença do nazismo, dos stalinismos e dos neocapitalismos, teve que amansar, estruturalizar e institucionalizar para enfrentar o inimigo com cálculo". Mas a força, a graça, a excitação e a capacidade de insuflar tanto nervos quanto cérebros, dessas peças, permanece intactas. Digo mais: talvez tenham adquirido vulto. Pois, mais do que objeto de admiração, elas são, hoje, uma fonte legítima de inspiração.
(Pasquim nº 16 – de 9 a 15/10/69)
in Negócio seguinte:; Maciel, Luiz Carlos – Editora Codecri – Rio de Janeiro, 1981
No Laboratório do Sábio

CAPÍTULO XV
As mulheres Alali, cinqüenta ao todo e todas fortíssimas, penetraram na floresta para castigar os seus recalcitrantes machos. Levavam as pesadíssimas clavas e uma boa quantidade de pedras com penas nas pontas. Mas a sua raiva era ainda mais terrível que as próprias armas. Nunca até então, em que pesasse a lembrança de qualquer delas, o homem se atrevera a discutir-lhe a autoridade, nem lhes mostrar outra coisa senão medo. Entretanto agora, em vez de eclipsar-se ao seu aparecimento, ele ousava desafiá-las, atacá-las, matá-las! Tal ocorrência era um absurdo, uma coisa sobrenatural que se verificava, mas que. não duraria muito tempo. Fossem dotadas de palavra e diriam tudo isso e mais alguma coisa. O negócio estava se tornando preto para os homens: as mulheres estavam com a cara feia. E o que mais se poderia esperar de mulheres que não foram dotadas de expressão comunicativa?
E com esta disposição de ânimo encontraram os homens numa vasta clareira, onde os renegados haviam feito fogo e estava assando a carne de alguns antílopes. Nunca as mulheres viram os seus homens tão simpáticos e elegantes. Sempre eles lhes apareceram magros, quase que cadavéricos, pois que outrora não se alimentavam tão bem como a partir do dia em que Tarzan dos Macacos dera armas ao filho da Primeira Mulher. Enquanto outrora levavam o tempo todo a fugir, aterrorizados, das suas terríveis mulheres, e mal tinham tempo para caçar e alimentar-se convenientemente, agora encontravam descanso e paz de espírito e suas armas lhes davam carnes que, doutra forma, não poderiam provar nem uma vez por ano. Das lagartas e larvas chegaram a uma quase constante alimentação de carne de antílope.
Entretanto, as mulheres não ligaram muito, no momento, à aparência física dos homens. Acharam-nos. Era o bastante. Deles já se aproximavam, arrastando-se, quando um dos homens levantou o olhar, e descobriu-a. Tão arraigado neles estava o hábito de fugir que, esquecendo-se de sua recém-encontrada independência, ele se pôs de pé e num salto alcançou as árvores. Os outros, sem que cuidassem de conhecer a causa de sua precipitação, seguiram-no rente dos seus calcanhares. As mulheres atravessaram, correndo, a clareira, enquanto os homens desapareciam entre as árvores, no lado oposto. Bem que sabiam o que os homens pretendiam. Uma vez na floresta, eles se punham atrás das mais próximas árvores e então se voltavam para ver se suas perseguidoras lhes vinham ao encalço. Este costume estúpido dos machos é que permitia que mais facilmente fossem apanhados pelas ágeis fêmeas.
No entanto, nem todos os homens haviam desaparecido. Um dentre eles havia recuado alguns passos, para se por a salvo àquela louca disparada das mulheres, e depois parou, voltou-se e cara a cara enfrentou as mulheres que vinham correndo. Era o filho da Primeira Mulher, e a ele Tarzan ensinara alguma coisa mais do que o uso de suas novas armas, pois graças ao senhor da jângal, a quem o Alalus adorava com devotamento de um cão, adquirira os primeiros rudimentos da coragem. E assim, enquanto os mais timoratos companheiros se escondiam nas árvores e olhavam para trás, viram eles o Alalus sozinho enfrentar o ataque das cinqüenta enfurecidas mulheres. Viram-no ajustar uma seta ao seu arco, coisa que também as mulheres enxergaram, mas não entenderam. Não entenderam imediatamente, e logo o cordel do arco zuniu e a mulher que estava na dianteira cambaleou e caiu com uma seta no coração. As outras não pararam, porquanto aquilo se verificou rapidamente e tanto que o significado daquele ato não lhes penetrava no endurecido cérebro. O filho da Primeira Mulher ajustou uma segunda seta e disparou-a. Outra mulher caiu, rolando pelo chão. Só então é que as companheiras hesitaram. Hesitaram e ficaram perdidas, porquanto aquela momentânea pausa encorajou os outros homens que espreitavam atrás das árvores. Se um deles podia enfrentar sozinho cinqüenta mulheres e obrigá-las a um alto, o que não poderiam fazer os onze? Saíram, pois, do seu refúgio, com lanças e setas, precisamente, no instante em que as mulheres renovavam o assalto. As pedras com penas voavam rapidamente e em grande quantidade, mas mais ligeiras e mais precisas voavam as setas dos homens, com penas na extremidade. A maioral das mulheres avançou corajosamente até aproximar-se o bastante para poder fazer uso de sua clava e agarrar os homens com suas poderosas mãos. Entretanto, êles haviam aprendido que as lanças são armas mais terríveis que as clavas, de modo que as que não quiseram! cair feridas, voltaram nos pés e fugiram.
Foi então que o filho da Primeira Mulher revelou uma centelha de generalato, que decidiu o êxito daquele dia, e talvez para sempre. Sua ação fez época na existência dos zertalacolois. Em lugar de satisfazer-se com a repulsa das mulheres, em lugar de descansar nos louros da vitória alcançada, ele assumiu o papel das suas hereditárias inimigas e assaltantes mulheres, fez sinal aos companheiros que o acompanhassem e quando viram as mulheres fugindo ficaram tão entusiasmados com este reverso de velhos hábitos que se puseram rapidamente em sua perseguição.
Pensaram que era intenção do filho da Primeira Mulher matar todas as suas inimigas, e ficaram surpresos quando o notaram saltar sobre uma das mais novas, segurá-la pelos cabelos e desarmá-la. Tão notável lhes pareceu que um dos seus companheiros, tendo uma mulher em seu poder, imediatamente não a matasse, que foram constrangidos a parar e rodeá-lo, fazendo-lhe perguntas naquela estranha linguagem mímica.
— Por que você a segura? Por que não a mata? Não receia que ela o mate? eram algumas das perguntas com que o cruzaram.
— Vou conservá-la comigo, replicou o filho da Primeira Mulher. Não gosto de cozinhar. Ela cozinhará para mim. Se recusar, bater-lhe-ei com isto.
E o jovem ameaçou as costas da rapariga com sua lança, gesto que a fez abaixar-se e, apavorada, cair sobre um dos joelhos.
Os homens se puseram a dar saltos de tão excitados ante o valor deste plano e o evidente terror da mulher, pois o ato do companheiro penetrara a fundo em sua embotada consciência.
— Onde estão as mulheres? gesticularam uns aos outros. Mas as mulheres haviam desaparecido.
Um dos homens partiu na direção que elas tomaram.
— Eu vou! gesticulou ele. E voltarei com uma mulher minha, para cozinhar para mim!
Numa louca corrida os outros o seguiram, deixando o filho da Primeira Mulher sozinho com a sua prisioneira.
— Cozinhará para mim? indagou ele, voltando-se para a presa.
Aos seus gestos, a rapariga lhe correspondeu com uma taciturna e enfurecida cara. O filho da Primeira Mulher levantou a lança e com a pesada arma deu-lhe uma pancada na cabeça, derrubando-a. E ali permaneceu, perto dela, rosnando e enfurecido, e ameaçando-a com outros castigos, enquanto ela se agachava no lugar onde havia caído. O rapaz deu-lhe um pontapé.
— Levante-se! ordenou-lhe.
Vagarosamente ela se pôs de joelhos e abraçou-lhe as pernas e levantou os olhos para a sua cara, com a expressão aduladora e devota de um cão.
— Você cozinhará para mim? insistiu o Alalus.
— Para sempre! respondeu a rapariga, na linguagem mímica de sua gente.
in Tarzan e os Homens-formiga; Burroughs, Edgar Rice – Companhia Editora Nacional – São Paulo, 1958
outubro 15, 2008
outubro 10, 2008
Posso falar?

69 - Praça da Luz
Gênero Documentário, Festival do Rio
Diretor Carolina Markowicz, Joana Galvão
Ano 2007
Duração 20 min
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil
Prostitutas de idade avançada ganham a vida na Praça da Luz, em São Paulo. Relatos inusitados e surpreendentes de cinco mulheres que revelam em detalhes suas experiências em todos esses anos de profissão.
Para assistir ao vídeo >>>clicaqui<<<
outubro 02, 2008
outubro 01, 2008
A Mensagem dos Místicos

Na manhã seguinte, acordei assim que ouvi Wil se mexendo. Tínhamos passado a noite numa casa de um de seus amigos, e ele se sentava numa tarimba do outro lado do quarto, vestindo-se apressado. Ainda estava escuro fora da casa.
— Vamos arrumar a trouxa — ele sussurrou.
Pegamos nossas roupas e fizemos várias viagens até o jipe, com alguns suprimentos extras que Wil comprara. O centro da aldeia ficava apenas a algumas centenas de metros, mas poucas luzes varavam a escuridão. O amanhecer era só uma faixa de céu mais claro para os lados do leste. Além de alguns pássaros anunciando a manhã iminente, não se ouviam outros sons.
Quando terminamos, fiquei no jipe, enquanto Wil falava brevemente com seu amigo, que permanecera sonolento na varanda durante nossas idas e vindas. De repente, ouvimos barulho no entroncamento. Vimos os faróis de três caminhões, que entraram no centro da cidade e pararam.
— Talvez seja Jensen — disse Wil. — Vamos até lá ver o que estão fazendo, mas com cuidado.
Atravessamos várias ruas e entramos num beco que dava na rua principal, a uns trinta metros dos caminhões. Dois dos veículos estavam sendo abastecidos com combustível e o terceiro parado à frente da loja. Havia quatro ou cinco pessoas por perto. Vi Marjorie sair da loja e colocar alguma coisa no caminhão, depois andar distraída para nosso lado, dando uma olhada nas lojas vizinhas.
— Vá lá e veja se consegue fazer com que ela venha conosco — sussurrou Wil. — Espero você aqui.
Eu dobrei a esquina, e quando me aproximava dela me senti horrorizado. Atrás de Marjorie, na frente da loja, vi pela primeira vez que vários dos homens de Jensen tinham metralhadoras automáticas. Alguns instantes depois, meu pavor intensificou-se. Na rua em frente a mim, soldados agachavam-se e aproximavam-se lentamente do grupo de Jensen.
No mesmo momento em que Marjorie me viu, os homens de Jensen viram os outros e dispersaram. Uma rajada de metralhadora encheu o ar. Marjorie me olhava com terror nos olhos. Corri e agarrei-a. Enfiamo-nos correndo no beco seguinte. Mais tiros eram disparados em meio a furiosos gritos em espanhol. Tropeçamos numa pilha de caixas de papelão vazias e caímos, nossos rostos quase tocando-se.
— Vamos! — gritei, saltando de pé.
Ela se levantou com esforço, me puxou para baixo de novo, apontando com a cabeça o fim do beco. Dois homens armados escondiam-se de costas para nós, olhando a rua seguinte. Ficamos imóveis. Finalmente, eles atravessaram a rua correndo para a área de floresta adiante.
Eu sabia que tínhamos de ir até o jipe e voltar para a casa do amigo de Wil. Tinha certeza de que ele estaria lá. Rastejamos com cuidado até a rua seguinte. Ouviam-se gritos furiosos e disparos à direita, mas não víamos ninguém. Olhei à esquerda; nada ali também — nenhum sinal de Wil. Imaginei que ele tivesse corrido à nossa frente.
— Vamos cortar pelo mato — eu disse a Marjorie, que agora estava alerta e parecendo decidida. — Depois — continuei —ficamos na beira da mata e seguimos para a esquerda. O jipe está parado daquele lado.
— Tudo bem — ela disse.
Atravessamos rápido a rua e chegamos a mais ou menos uns trinta metros da casa. O jipe continuava lá, mas não vimos qualquer movimento em parte alguma. Ao nos prepararmos para atravessar correndo a última rua antes da casa, um veículo militar dobrou uma esquina à nossa esquerda e avançou devagar para a moradia. Ao mesmo tempo, Wil atravessou o terreiro correndo, deu partida no jipe e saiu disparado na direção oposta. Os veículos o
perseguiram.
— Porra! — eu disse.
— Que vamos fazer agora? — perguntou Marjorie, o pânico voltando ao rosto.
Mais tiros eram disparados na rua atrás de nós, desta vez mais perto. À frente, a floresta engrossava e tendia para a crista que dominava a aldeia e corria para o norte e para o sul. Era a mesma crista que eu vira do mirante antes.
— Vamos lá para o topo — eu disse. — Depressa!
Subimos várias centenas de metros pela montanha. Num mirante, paramos e olhamos a aldeia lá atrás. Veículos militares como que jorravam nas ruas transversais, e inúmeros soldados faziam o que parecia ser uma busca de casa em casa. Abaixo de nós, na base da montanha, ouvi vozes abafadas.
Corremos mais montanha acima. Tudo que podíamos fazer agora era correr.
in A Profecia Celestina; Redfield, James – Objetiva – Rio de Janeiro, 1994
Tapir
Surtos de Poder Evolucionários

Em seu despertar espiritual no pico da montanha, nosso personagem também sentiu um fluxo de energia subindo pela sua coluna vertebral. Esta energia intrínseca, disponível a todos nós, é chamada de Kundalini na tradição espiritual indiana. Representada pela imagem de uma serpente adormecida na base da coluna, ela é pura energia criativa e é considerada como nada menos do que a força motriz da evolução. Quando despertada, a energia ascende pela medula espinhal, ativando os centros de energia do corpo e liberando várias sensações emocionais e físicas.
Carl Jung, que estudou muitas formas de misticismo, acreditava que seriam necessários milhares de anos para que este despertar se tornasse lugar-comum no ocidente. No entanto, de acordo com o psiquiatra Stanislav Grof: "Acontecimentos futuros demonstraram que essa estimativa estava errada. Quer este fato seja atribuído à evolução acelerada, à popularidade e à rápida disseminação de várias formas de prática espiritual, à pressão das perigosas crises do meio ambiente ou ao efeito facilitador das drogas psicodélicas, está bastante claro que indícios inconfundíveis do despertar de Kundalini podem ser observados hoje em dia em milhares de ocidentais."
O casamento da harmonia oriental como fluxo universal (ser) e a habilidade ocidental de agir em função de novas informações (fazer) é um importante aspecto da tendência para a totalidade, tão fundamental para uma espiritualidade emergente. Juntos, a harmonia do pensamento e da ação nos leva em direção a novos níveis de evolução.
in A Profecia Celestina, Guia de Leitura; Redfield, James e Adrienne, Carol – Objetiva –Rio de Janeiro, 1995
Holocibernética(n)

Do grego: holos e kubernan, dirigir.
Constante informática do Ser como Existência pelo feedback ou retroação própria à Holoscopia.
A Holocibernética traduz a propriedade fundamental do Ser caracterizada por um élan pulsional em direção à Comunicação ou em direção à expressão de seu Mistério.
No plano relativo, esta Comunicação se efetua entre os diferentes seres e campos que o Ser compõe. É uma constante comunhão (com-união), uma eterna sinfonia de uma Holocoreografia.
No plano absoluto, a holocibernética se efetua entre os eventos fantasmagóricos; ela é, portanto, ilusória; é uma comunicação do Ser consigo mesmo, dado que os seres e o universo que os contém são apenas fenômenos.
Esta perspectiva elimina o caráter mecanicista do termo cibernética e o transforma numa Holossinfonia.
O termo cibernética acentua também o aspecto da auto-regulação do élan do Ser na direção de uma comunicação ótima.
(V. Guenther, 1984, p. 5-7)
in Nova Linguagem Holística; Weil, Pierre – Espaço e Tempo – Rio de Janeiro, 1987
Ilustração Guinigui
Os lobos

Sofia não era muito obediente, como já temos visto pelo que temos lido até agora. Ela já devia estar corrigida, mas ainda não estava. Foi assim que lhe aconteceram muitas outras coisas más.
No dia seguinte ao do aniversário, a sua, mãe chamou-a e disse-lhe:
— Sofia, eu tinha prometido a você que quando fizesse quatro anos passaria a acompanhar-me nos meus passeios grandes. Eu vou até à fazenda de Svitine e tenho que passar pela floresta. Você virá comigo, mas quero avisá-la que preste atenção para não ficar para trás. Você sabe que eu ando depressa, e se você parar, pode ficar bem longe sem que mesmo eu perceba isso.
Sofia encantada de dar êsse passeio enorme, prometeu que iria perto de sua mãe e que não se perderia no bosque.
Paulo que tinha chegado nesse instante perguntou se podia acompanhá-las, para grande alegria de Sofia.
Durante algum tempo, caminharam com muito juizo, sempre atrás de Mme. de Réan. Divertiam-se com os cães que corriam e pulavam. Mme. de Réan sempre os levava em sua companhia.
Quando chegaram à floresta, as crianças colhiam algumas flores que estavam no caminho, mas não paravam nem um pouquinho.
Sofia viu perto do caminho uma porção de morangos.
— Que belos morangos! exclamou ela. Que pena não podermos apanhá-los.
Mme de Réan ouviu esta exclamação e mais uma vez proibiu que parassem.
Sofia suspirou e olhou com pena para os morangos, que gostaria tanto de comer.
— Não olhe para êles e você não terá vontade de comê-los, disse Paulo.
— Não é... é que êles são tão vermelhos, tão lindos, tão maduros, que devem estar uma delícia...
— Quanto mais olhar, mais vontade terá de comê-los. É melhor não olhar. Titia nos proibiu de parar.
— Eu queria apanhar apenas um. Isto não faria com que eu me atrasasse muito. Fique comigo e comeremos juntos, disse Sofia.
— Não, respondeu Paulo, eu não quero desobedecer minha tia, e não quero ficar perdido na floresta.
— Mas, não há perigo, insistiu Sofia. Você bem sabe que é para nos pôr medo que Mamãe fala assim. Nós encontraríamos logo o caminho se ficássemos para trás.
— Não. O bosque é muito grande, e poderíamos não encontrar mais o caminho, disse o menino.
— Faça como quiser, covarde. Eu, assim que encontrar alguns morangos vou parar para comer um pouco.
— Eu não sou covarde, rebateu Paulo. Você, você é que é desobediente e gulosa. Perca-se na floresta se quiser, mas eu prefiro obedecer minha tia.
Paulo continuou a seguir Mme. de Réan, que andava depressa e sem olhar para trás. Os cães caminhavam com ela e rodeavam-na pela frente e por trás. Sofia logo enxergou outros morangos tão lindos e tentadores como os primeiros. Comeu um, que achou maravilhoso,
depois um segundo, depois um terceiro. Ficou de cócoras para colhê-los melhor e mais depressa. De vez em quando lançava uma olhadela para a mãe e Paulo que se distanciavam. Os cães estavam inquietos. Iam até a mata e voltavam. Terminaram por fazer tanto barulho
que Mme. de Réan, que observava este movimento todo, viu dois olhos brilhantes e ferozes entre as fôlhas. Ouviu ao mesmo tempo um ruído de galhos quebrados e de folhas secas. Voltando-se para recomendar que as crianças andassem na frente dela, qual não foi o seu espanto quando viu apenas Paulo.
— Onde está Sofia? exclamou.
— Ela quis ficar atrás para comer morangos, minha tia.
— Que coisa horrível! O que ela foi fazer... Estamos sendo perseguidos por lobos. Voltemos imediatamente antes que ela seja devorada por eles.
Mme. de Réan correu, seguida pelos cães e pelo pobre Paulo quase morto de terror. Dirigiram-se ao lugar onde Sofia devia ter ficado. Viram-na de longe, sentada tranquilamente no chão, a saborear os morangos. De repente, dois dos cães uivaram lugubremente e dispararam na direção de Sofia. Neste instante, um lobo enorme, de olhos faiscantes e goela escancarada deixou ver sua cabeça ameaçadora. Preparava-se para dar um bote em Sofia, mas hesitou, ao ver os cães que se aproximavam. Esta hesitação durou pouco. A fera esfomeada deu um salto enorme. Mme. de Réan e Paulo gritavam desesperadamente. Os cães avançaram latindo furiosamente. Chegaram bem no momento em que o lobo agarrava a saia de Sofia, tentando puxá-la para o mato. Travou-se uma luta feroz. O lobo, mordido pelos cães, só pensava em defender-se. A situação piorou com a chegada de mais dois lobos. Os cães portaram-se como heróis e conseguiram afugentar as feras. Cobertos de sangue, vieram lamber as mãos de Mme. de Réan e das crianças. Mme. de Réan segurou Sofia e Paulo pela mão e continuou a andar, cercada pelos valorosos cães.
Mme. de Réan não disse nada. Sofia mal podia andar, de tal modo lhe tremiam as pernas. Paulo não estava menos pálido e trêmulo.
— Vamos parar um pouco aqui, disse Mme. de Réan. Vamos beber um pouco de água fresca, pois ela nos irá acalmar
Então inclinando-se no riacho bebeu uns goles de água, e lavou as mãos e o rosto. As crianças fizeram o mesmo. Mme de Réan mandou que molhassem a cabeça na água. Sentiram-se então reanimados e passou-lhes o tremor.
Os pobres cães jogaram-se nele, beberam água e lavaram as feridas. Rolavam no riacho, e saíram dele limpos e refrescados.
Depois de um quarto de hora Mme. de Réan levantou-se para continuar o paisseio.
— Sofia, disse, agora você vê que eu tinha razão em proibir você de parar?
— Sim, Mamãe, eu peço perdão por ter desobedecido. E, você meu bom Paulo eu fui muito má de ter chamado você de covarde.
— Covarde! Você chamou-o de covarde... Pois fique sabendo que quando corremos para onde você estava, ele é que corria na frente. Acaso não viu quando os outros lobos vieram em auxílio do que estava com você, Paulo, armado com um pedaço de pau, lançou-se diante deles para que eles não passassem? Fui eu que o segurei nos meus braços, e prendi perto de você, impedindo que ele fosse socorrer os cães. Acaso também não viu que durante todo o combate Paulo ficou na sua frente para impedir que os lobos chegassem perto de nós? Assim que Paulo é um covarde...
Sofia lançou-se ao pescoço de Paulo, e beijou-o muitas vezes, dizendo-lhe:
— Obrigado, meu bom e querido Paulo, eu sempre gostarei muitíssimo de você.
Quando chegaram na casa em que deviam ir todo o mundo ficou assustado com os rostos pálidos e com o vestido de Sofia todo rasgado pelos dentes do lobo.
Mme. de Réan contou a horrorosa aventura. Todos elogiaram Paulo por ter sido obediente e corajoso. Condenaram Sofia por ter sido desobediente e gulosa, e admiraram a valentia dos cães, que foram acariciados e que tiveram um excelente jantar de ossos e de restos de carne.
No dia seguinte Mme. de Réan deu a Paulo um uniforme completo de soldado. Paulo, louco de alegria, vestiu-o imediatamente e foi ao quarto de Sofia. Ela deu um grito de susto, vendo entrar um turco com um turbante, um sabre na mão e revólveres na cintura. Paulo começou então a pular e a rir, e logo Sofia reconheceu-o achando-o muito bonito assim.
Sofia não teve mais outro castigo pela sua desobediência. Sua mãe achou que o susto que passara tinha sido suficiente.
in Os Desastres de Sofia; Segur, Condessa de – Editora do Brasil – São Paulo, 1961
Ilustração Maria Heloisa Penteado
O caçador

Herne ou Cernunnos
Hh-errm!... Hh-errm!... Hh-errm!...
A fêmea do veado chamando o macho
A fêmea do veado chamando o macho

...Nos séculos anteriores à era cristã os conhecimentos e as lendas celtas não foram anotados pelos celtas da época porque eles não tinham escrita, a não ser o gaulês usado apenas para epitáfios curtos e outras frases gravadas em pedras. A história, a mitologia e a sabedoria dos celtas, esta aliás muito rica, foram passadas oralmente de geração em geração pelos druidas e bardos que tinham muitos anos de treino naquele método.
...O conhecimento de que dispomos daquela tradição verbal vem dos monges cristãos que a registraram. A fonte mais rica de todas é irlandesa, porque os primeiros monges irlandeses anotaram a tradição com uma fidelidade admirável. Os deuses e deusas foram abertamente transformados em heróis e heroínas da raça, mas a história de todos sobreviveu com pouco mais que um assentimento formal e ocasional às exigências cristãs, facilmente detectadas.
...Desse tipo de sagas escritas, como o Lebor gabáIa erenn (Livro da tomada da Irlanda ou Livro das invasões) e o Táin bó cuailnge (O estouro da boiada de Cooley), assim como das lendas folclóricas ligadas a santos como santa Brígida, podemos colher uma idéia razoavelmente fidedigna dos deuses e deusas da Irlanda anterior ao cristianismo.
...No que se refere às lendas galesas, temos menos sorte. A principal fonte substancial é o Mabinogion, mas, observou Matthew Arnold: "A primeira coisa que nos impressiona quando lemos o Mabinogion é a naturalidade com que o narrador de histórias medieval está saqueando uma antiguidade cujo segredo ele não possui inteiramente".
...Quanto à Inglaterra e à Escócia, não temos nem ao menos um Mabinogion: só temos folclore, o indício de artefatos como figuras talhadas na pedra, da estatuária romano-britânica, nomes de lugares e o que ficou conhecido como tradições pagãs dos celtas, saxões e outros que contribuíram para a síntese final; e no momento em que aquela síntese se estabeleceu, o controle era do cristianismo, um cristianismo do tipo romano, disciplinado, não do tipo mais livre como foi o céltico primitivo.
...Isto nos leva ao fato surpreendente de não podermos ter certeza do nome verdadeiro do deus de chifres celta. Tudo que temos é o Heme do folclore britânico e o feliz acidente de um altar gaulês isolado e parcialmente mutilado em que aquele deus aparece com o nome de Cernunnos.
...Ele existiu, disso não pode haver dúvida. Está retratado em muitos artefatos celtas, desde uma escultura talhada em pedra que se encontra no Val Carmonica (norte da Itália) e data do século IV a.C. até o famoso Caldeirão de Gundestrup, encontrado numa turfeira da Dinamarca.
...Os mais próximos a nós se encontram na cruz medieval do mercado que há no centro de Kells (condado de Meath) e alguns quilômetros mais adiante, numa pedra existente no adro do cemitério da igreja da colina de Tara (veja o Quadro 10 de O modo dos bruxos). A maior parte das pessoas provavelmente pensa que o desenho que há na cruz do mercado foi feito para indicar o Demônio, mas, tendo em vista que ele está ladeado por duas criaturas parecidas com um lobo, é óbvio que se trata do Rei dos Animais dotado de chifres; os entalhadores medievais tinham poucas inibições em relação aos objetos pagãos, o que é confirmado por tudo, desde o diabinho de Lincoln até Sheila-na-Gigs e inúmeras máscaras enfeitadas com folhagens.
...Normalmente ele é retratado com chifres e acompanhado de animais. Em geral, usa o torc (gargantilha circular) da nobreza celta no pescoço ou nos chifres. Muitas vezes, segura uma serpente de chifres ou com cabeça de carneiro, como no Caldeirão de Gundestrup.
...Se ele está tão difundido e é tão semelhante em diversas representações, por que não aparece no grande volume de lendas que dá nome a todo mundo, desde Dagda, Lugh e Dana da Irlanda até Arianrhod, Lleu Llaw Gyffes e Cerridwen de Gales?
...A explicação mais plausível é que, enquanto as divindades das lendas registradas são as de uma aristocracia de guerreiros, o Rei de Chifres dos Animais, da Natureza e da Fecundidade era primordialmente um deus das pessoas comuns. As Deusas-Mães e as deusas da Terra tendiam a ser comuns aos dois grupos, mas os deuses masculinos tinham mais espírito de classe. Os deuses dos lavradores dificilmente entrariam nas canções que os bardos cantavam para os reis guerreiros.
...Como disse Proinsias MacCana (em Mitologia celta, p. 48): "O interesse evidente da divindade pela fecundidade pode ter influenciado a forma do culto e o conteúdo do mito desse deus, e isto, por sua vez, talvez explique por que os artistas do período cristão primitivo tendiam a associá-lo a Satã, e por que só sobreviveram elementos residuais daqueles mitos. Nessas circunstâncias, provavelmente o culto de Cernunnos pode ter perdurado mais tempo nas camadas mais baixas da sociedade, onde os costumes eram conservadores e era difícil impor a ortodoxia. Infelizmente, este território é praticamente desconhecido, pois só nestes últimos tempos os usos e crenças das pessoas comuns receberam um reconhecimento consciente na literatura escrita".
...Muito razoavelmente, os estudiosos da mitologia pagã usaram como rótulo geral o nome Cernunnos, único nome do Rei de Chifres celta registrado na época contemporânea. Mas, sendo da Gália, é provável que 'Cernunnos' seja uma latinização ou uma helenização do deus celta nativo. E o fato de sobreviver no folclore britânico um deus equivalente chamado Heme sugere que o verdadeiro nome tinha a raiz H-RN ou K-RN.
...Existem outros indícios disto. Por exemplo, Conall Cernach, herói do Ulster em Táin bó fraich (O transporte do gado de Fraich) vai atacar uma fortaleza guardada por uma serpente terrível — e a serpente se submete a ele docilmente, pulando-lhe no cinto, onde normalmente é encontrada a serpente que acompanha Cernunnos. Isso não seria uma lembrança de uma história de Cernunnos? Tendo em vista que o galês irlandês é o celta camuflado, a forma esperada seria K-RN.
...Há mais K-RNs entre os santos irlandeses, figuras semilendárias que (como Bridget ou Bríd) absorveram as características de divindades pagãs de nomes semelhantes. Kieran ou Ciaran era o nome de dois santos do século V ou VI, ambos ligados a lendas de animais. São Kieran de Clonmacnoise tinha uma raposa domesticada que costumava ajudá-lo a carregar o que ele escrevia. Outros santos tinham tantos ciúmes dele que rezavam para que morresse logo; uma exceção era Columkille (Cotumba), o que é lógico, pois tinha afinidades druídicas e era um dos líderes da Guilda dos Bardos. Pouco antes de morrer, Kieran pediu que depositassem seus ossos numa colina parecida com um veado e lhe resguardassem o espírito, em vez de guardar relíquias suas. São Kieran de Saighir construiu para si uma cela de eremita com a ajuda do porco-do-mato que foi seu primeiro discípulo, ao qual logo depois acrescentou uma raposa, um texugo, um lobo e uma corça que lhe obedeciam as ordens.
...Perto de onde moramos há um 'Poço de São Kieran'; algumas pessoas ainda se lembram do antigo costume de ir ao poço no dia desse santo levando os cavalos, que recebem uma bênção ritual.
...Outro santo irlandês, chamado Cainnech, tinha uma corça que o deixava usar os chifres como suporte de livros.
...Quanto à forma H-RN, Herne, o Caçador, é uma figura do folclore britânico. A melhor lenda dele está associada ao Great Park de Windsor, onde dizem que ele aparecia nas épocas de crise nacional. Coroado com chifres de veado, ele lidera a Caçada Selvagem de cachorros de orelhas vermelhas, num passo furioso céu afora. Em Gales o chefe da Caçada Selvagem se chama Gwyn – não tão diferente.
...Uma das mais famosas figuras do império britânico é o gigante Cerne Abbas, de Dorset. Ele não tem chifres (embora talvez os tenha possuído um dia), mas tem um falo ereto que o caracteriza inquestionavelmente como deus da fertilidade; e o nome do lugar, que também é o nome do rio local, poderia ser pura coincidência? Temos nossas dúvidas.
...Na Inglaterra há muitos lugares que incorporam Herne ou Hern; entre eles está Herne Hill ('Colina de Herne'), no sul de Londres, e que costuma ter o significado de Herons Hill ('Colina do Falcão'). Mas desde quando falcões vivem em morros? Eles não gostam de pescar nos rios?
...Por fim, aqui temos um pensamento interessante de Francis De'Venney, membro de nossa sociedade de bruxos e que tem muita experiência com veados. A fêmea chama o macho com um som que vem do fundo da garganta e se parece com 'HH-ERRRN'. Será que os nossos ancestrais não teriam ouvido Herne ser chamado desse modo e pensado, com razão, que esse era o seu nome?

O ritual de Herne ou Cernunnos
...Este ritual foi concebido por Francis De'Venney e não é o de um grupo de bruxos, nem chega a ser um ritual de parceria de trabalho. É uma experiência iniciatória para um bruxo, na qual a própria Terra é a parceira no trabalho: trata-se de uma comunhão com a Deusa sem intervenção de um representante humano.
...Admitimos ser um ritual difícil de organizar por ser realizado ao ar livre, de preferência num campo natural onde seja possível acender uma fogueirinha e não haja perigo de alguém olhar ou interromper, e onde o clima seja suficientemente ameno para que os participantes possam trabalhar nus. No entanto, vale o trabalho de conseguir reunir todas estas condições.
...Escrevemos este ritual tendo em vista a simbologia celta e o veado macho, que é importante; os bruxos que seguem outras tradições podem exercitar o cérebro e os seus conhecimentos e conceber outros rituais equivalentes. Por exemplo, a Canção de Amergin, declamada no ritual, é uma peça preciosa da tradição celta. Na lenda irlandesa, Amergin foi o bardo e porta-voz dos galeses quando estes tomaram a Irlanda dos tuatha de dannan; dizem que quando os galeses aportaram, ele entoou essa canção, que é analisada em profundidade em A deusa branca, de Graves.
A preparação...Vamos denominar Homem o bruxo que vai passar por esta experiência. Mais duas pessoas devem estar presentes como ajudantes; nenhuma será a parceira de trabalho do Homem, mas uma ou ambas têm de ser mulheres. É preciso que sejam pessoas experimentadas e sensatas, dessas que sabem prestar primeiros socorros ou ficar por perto quando alguém por acaso entrar num estado alterado de percepção consciente. Ambas ficam vestidas o tempo todo.
...O Homem deve ter se preparado para decorar a Canção de Amergin (reproduzida abaixo) até conseguir recitá-la sem hesitar. Para o ritual, o Homem deve ficar completamente nu, retirando até alguma jóia que possa estar usando, mas convém que deixe as roupas por perto para vesti-Ias depois; é bom não esquecer de deixá-las num lugar onde não fiquem muito frias.
...Acende-se uma fogueirinha, tendo o cuidado de não deixar faltar combustível para que não se apague. Os ajudantes devem preparar e ter à mão algo quente para beber, usando para isso uma chaleira ou uma garrafa térmica.
O ritual...Os ajudantes sentam-se olhando para a fogueira e o Homem senta-se um pouco afastado, de costas para o fogo, concentrando o olhar nas sombras da escuridão.
...Falando em voz baixa, os ajudantes dirigem a ele determinadas palavras, que podem ser histórias ou canções celtas.
...Quando ele acha que está pronto, fica em pé (sempre de costas para o fogo e para os ajudantes) e declama a Canção de Amergin:
Sou um veado de sete galhos,
Sou um dilúvio solto na planície,
Sou um vento nas águas profundas,
Sou uma lágrima brilhante do Sol,
Sou um falcão num penhasco,
Sou um belo entre as flores,
Sou um deus que incendeia a cabeça com fumaça,
Sou uma lança que mantém a luta,
Sou um salmão no lago,Sou uma colina de poesia,
Sou um javali selvagem,Sou um ruído ameaçador do mar,
Sou uma onda do mar,
Quem, senão eu, conhece o segredo dos dólmenes em estado bruto?
...Quando o Homem termina, repete sete vezes a primeira linha, "Sou um veado de sete galhos", cada vez com mais força, convencendo-se de que aquela afirmação é pessoal e significa exatamente o que está dizendo.
...Finalmente o Homem senta-se, ainda de frente para o escuro, e expande a percepção consciente, cujos limites sente deslocarem-se para fora de sua pessoa.
...Os ajudantes continuam em voz baixa com as histórias e canções.
...O Homem pára de tentar identificar tudo o que está percebendo, como por exemplo os sons e odores que o rodeiam; apenas precisa distinguir o que representa perigo, segurança ou alimento. Precisa se elevar ao estado em que ainda percebe que as vozes que ouve atrás de si são vozes amigas, sem se importar com o significado das palavras nem com o fato de estar ouvindo palavras.
...Também precisa saber (e não apenas aceitar) que é um veado. Nesse estágio, deve seguir os próprios instintos.
...Os ajudantes não devem interferir, a não ser que o Homem esteja se pondo em perigo. Se o 'veado' se afastar, deve ser seguido a uma distância discreta; para isso, é preferível que um dos ajudantes tenha experiência em praticar magia em bosques.
...Quando o corpo do Homem sente frio ou desconforto e volta à consciência normal, volta-se para a fogueira e veste as roupas. Convém tomar uma bebida quente, mas não alcoólica.
...Uma sugestão final: se você acha que sentiu alguma coisa genuína com este ritual, não se apresse em comunicar isso a outras pessoas. É algo muito pessoal e a probabilidade de não ser comunicável é tão grande que qualquer tentativa de contá-lo a alguém pode distorcer o que você sentiu.
in O Deus dos Magos; Farrar, Janet e Stewart – Siciliano – São Paulo, 1993
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