abril 23, 2007

Biografia



Nasci na maternidade Pró-Matre no coração de São Paulo há 46 anos. Piva é um antigo nome do Veneto (Itália do Norte). Meu avô era de Saleto, perto de Rovigo.

O Livro da Família, que tinha lá em casa, conta a história de um antepassado cavaleiro que combateu nas Cruzadas. Como o avô Cacciaguida de Dante. Só que ao voltar das Cruzadas virou herético & começou a pregar a favor do Demônio. Por ordem do bispo local, foi queimado na praça pública com armadura & tudo. No momento, deve estar passando uma temporada na IX Bolgia do Inferno de Dante. Local destinado aos semeadores de discórdia. Os filhos fugiram da cidade & a descendência continuou.

Mas em matéria de revolta eu não preciso de antepassados. A minha vida & poesia tem sido uma permanente insurreição contra todas as Ordens. Sou uma sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo das línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys. O cinema holandês informará.

Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental. Não tenho nenhum patrono no “Posto”, nem leões-de-chácara & guarda-costas literários nas redações de jornais & revistas. Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo, surrealismo & modernismo já se encarregaram de destruir. A estes neo-zhdanovistas de todos os matizes, gostaria de lembrar esta passagem do manifesto redigido por André Breton & Leon Trotsky: “Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a toda sujeição, não se deixe impor filiação sob nenhum pretexto. Aqueles que nos pressionam, hoje ou amanhã, para que consintamos que a arte seja submetida a uma disciplina que sustentamos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável, e nossa deliberada vontade de nos manter no lema: todas as licenças em arte". Fecho também com John Cage & não abro: “Sou pela multiplicidade, a atenção dispersa e a descentralização, e portanto me situo do lado do anarquismo individualista”. Ou Jean Dubuffet: “O uníssono é uma música miserável”. Precisamos de criações desprovidas de regras & de convenções paralisantes. A poesia é um salto no escuro como o amor. Por isso, meus leitores preferidos são os heréticos de todas as escolas & os transgressores de todas as leis morais & sociais. Como não sou intelectual de esquerda, estou sempre às voltas com o problema da grana.

Pasolini começou a contagem regressiva do nosso planeta a partir do desaparecimento dos vagalumes na Itália. Eu poderia começar a mesma contagem regressiva a partir do desconhecimento & desaparecimento da abelha Jataí no Brasil. Acredito que, para a defesa do nosso planeta, as melhores idéias, como disse Edgar Morin, são as idéias “biodegradáveis".

Uma tarde, numa ilha esquecida do litoral sul de São Paulo, um garoto com olhos de Afrodite me perguntou no que eu acreditava. Respondi: Amor, Poesia & Liberdade. E nos Ovnis também.


ROBERTO PIVA
Iguape (SP) Fevereiro de 85
Hora Cósmica do Leopardo
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in Antologia Poética; Piva, Roberto – L&PM – Porto Alegre, 1985
Ilustração: Guinigui, sobre fragmento de foto de Mario Rui Feliciani

2 comentários:

Raimundo Matos de Leão disse...

Tivesse chaegado antes estarai na minha tese sobre teatro e contracultura na Bahia. Gosto do poeta, sua irreverência total e sincera. Nada daquela postura de chocar burguês que hoje nem galinha choca. Gosto das citações que ele faz. Se o carniceiro da velha Rússia não tivesse exterminada a revolução permanentetalvez, hoje, estivessemos noutra. Benjamin já tinha apontado isso quando pensou sobre o historicimo e a noção de progresso que alimentou o marxismo de darwnismo positivismo. Agoram o negócio é comer com coentro, Viva Piva, pivete, piriguete, pérola aos porcos.

Anônimo disse...

Ao organizador do blog:

Peço a gentileza de indicar a autoria da foto usada, de preferência da seguinte forma:

“fragmento de foto de Mario Rui Feliciani”

A prova de que a foto é de minha autoria está na edição de Ciclones.

Grato

Mario Rui Feliciani